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domingo, 13 de janeiro de 2013

Trabalho de capa da Science Translational Medicine tem co-autor da Gineco USP


A edição de 9 de janeiro de 2013 da Science Translational Medicine traz um trabalho de enorme repercussão na Ginecologia, notadamente na área oncológica.  O trabalho mostra a detecção em 100% dos casos de câncer de endométrio e 41% em câncer de ovário, de DNA específico (painel de genes mutantes) em células coletadas para o Papanicolaou, utilizando a tecnologia da citologia em meio líquido. O teste já está sendo chamado de PAP Gene test.

O trabalho multicêntrico, envolveu a Universidade de São Paulo, através do Prof. Dr. Jesus Paula Carvalho, chefe do setor de Oncologia da Clínica Ginecológica da Universidade de São Paulo/ ICESP - Instituto do Câncer do Estado de São Paulo e da Prof. Dra.Suely Kazue N. Marie, livre-docente em Neurologia na Universidade de São Paulo e pesquisadora em Biologia Molecular .

O trabalho reuniu o Instituto Ludwig (LICR) (que tem um ramo em São Paulo), a Universidade Johns Hopkins (JP) de Baltimore, o Memorial Sloan-Kettering Cancer Center (MSKCC) de Nova York, também  nos Estados Unidos, além do ILSBio um banco de tecidos. O autor principal é Isaac Kinde, um estudante graduado da Hopkins, que fez a pesquisa laboratorial, incluindo um único  "genetic barcode" no estágio  inicial do estudo. Além de Kinde estiveram envolvidos na pesquisa os Drs. Luiz Dias, Professor Associado da John Hopkins e diretor de Medicina Translacional do Instituto Ludwig de Nova York e também da Swimm Across America, uma entidade que levanta recursos para a pesquisa do câncer nos Estados Unidos, através de competições de natação e mantém um Laboratório dentro  da Hopkins além do The Commonwealth Fund, Hilton-Ludwig Cancer Prevention Initiative, Virginia & D.K. Ludwig Fund for Cancer Research, The Experimental Therapeutics Center of the MSKCC,  Chia Family Foudation, The Honorable Tina Brozman Foundation, The United Negro College Fund/Merck Graduate Science Research Dissertation Felloship, the Burroghs Wellcome Career Award for Medical Scientists, the National Colorectal Cancer Research Alliance e o National Institutes of Health's Nacional Cancer Institute.

Pesquisadores:
Kind, Bettegowda, Wang e Diaz do Ludwig (e JP);  Jian Wu, N Agrawal, Ie-Ming Shih, R Kurman, R.Giuntoli, R. Roden e J. Eshleman da JP; N. Papadopoulos, K. Kinzler e B. Vogelstein do Laboratório do LICR na JP;  F.Dao  e D.A. Levine do MSKCC e, do Brasil , JP Carvalho e Suely Kazue Nagahashi Marie, ambos da USP/ICESP.

As perspectivas da aplicação prática do que o trabalho demonstrou são fantásticas em termos de rastreamento do câncer ginecológico e saúde pública.

Leia o resumo em português do trabalho aqui.

Edição Dr. Homero Guidi

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Evaluation of DNA from the papanicolaou test to detect ovarian and endometrial cancers.


Resumo traduzido do trabalho

Evaluation of DNA from the papanicolaou test to detect ovarian and endometrial cancers.

Kinde I, Bettegowda C, Wang Y, Wu J, Agrawal N, Shih IeM, Kurman R, Dao F, Levine DA, Giuntoli R, Roden R, Eshleman JR, Carvalho JP, Marie SK, Papadopoulos N, Kinzler KW, Vogelstein B, Diaz LA Jr.
Sci Transl Med. 2013 Jan 9;5(167):167ra4. doi: 10.1126/scitranslmed.3004952.


O teste de Papanicolaou (esfregaços) revolucionou o tratamento de pacientes  com câncer de colo do útero, permitindo a detecção de tumores iniciais, cirurgicamente curáveis e também de suas formas precursoras.  Nos últimos anos, o exame de Papanicolaou tradicional foi substituído pela citologia em base líquida (Pap teste), o que permite não só a avaliação citológica, mas igualmente a detecção do DNA do vírus do papiloma humano, HPV, o agente causador do câncer  cervical.  Deduzimos que  esse mesmo  DNA poderia ser explorado para detectar mutações somáticas,  presente em outras células tumorais, que se acumulam no colo do útero, oriundas de cânceres do ovário e endométrio.
Um painel de  genes que são frequentemente mutados nos cânceres do endométrio e do ovário foi montado  a partir dos dados do exame de seqüenciamento genético completo  de 22 casos de câncer  de  endométrio e dos dados anteriormente publicados sobre outros tipos de tumores.Usamos este painel para procurar mutações em 24 casos de câncer  endometrial e 22 casos de câncer de ovário e as mutações identificadas em todas as 46 amostras. Com um método de seqüenciamento altamente  sensível, fomos capazes de identificar as mesmas mutações no DNA em  amostras do Pap teste em base líquida  em 100% dos casos de câncer de endométrio (24 de 24) e em 41% dos casos de câncer de ovário (9 de 22). Baseado nesses resultados, desenvolvemos  um método baseado em seqüência gênica para avaliar  mutações em 12 genes em um único espécime de Papanicolaou líquido, sem o conhecimento prévio do genótipo do tumor. Quando aplicado a 14 amostras selecionadas a partir dos casos positivos descritos acima, as mutações específicas do tumor foram identificadas. Estes resultados demonstram que a detecção do DNA, sobretudo do câncer de endométrio  e numa fração apreciável de cânceres de ovário, é possível numa amostra padrão do Papanicolaou em base líquida, obtida rotineiramente durante uma avaliação ginecológica.  Embora  sejam necessárias  melhorias técnicas,  antes de se aplicar o teste de uma forma de rotina na prática clínica, esses achados  representam  um passo promissor para o estabelecimento de uma metodologia amplamente útil no rastreamento precoce de outras doenças ginecológicas malignas.

Editor Dr. Homero Guidi. 

terça-feira, 13 de março de 2012

Atualização Científica Relâmpago

Artigos recentes do New England Journal of Medicine
Resenha Dr. Homero Guidi
Editor do www.ginecousp.com.br
O risco iminente da infecção gonocócica intratável.
Título original  :  Perspective: The Emerging Threat of Untreatable Gonococcal Infection
Bolan GA, Sparling PF, Wasserheit JN.
N Engl J Med, 2012, 366;6:485-487.

Em editorial do dia 9 de fevereiro de 2012 especialistas do CDC americano e das Universidades de Washington e North Carolina alertam que as gonococcias, que respondem pelo segundo lugar das DSTs de notificação, segue na sua característica de rapidamente desenvolver resistência aos agentes utilizados no seu tratamento.
Foi assim com a sulfanilamidas nos anos 40, com as penicilinas e tetraciclinas nos anos 80 e as fluoroquinolonas ao redor de 2007.
Do ponto de vista da saúde pública, quando a prevalência da resistência antimicrobiana excede 5% pela monitoração do Gonococcal Isolate surveillance Project (GISP), as recomendações nacionais de tratamento são mudadas para drogas mais efetivas. Atualmente a recomendação do CDC está restrita unicamente à terceira geração de cefalosporinas.
A preocupação, que motiva o alerta, é o rápido decréscimo da susceptibilidade do gonococo a essas drogas.   Entre 2006 e 2011 houve um aumento de 17 vezes a quantidade da concentração inibitória mínima nas culturas (MIC).  O parâmetro laboratorial definidos pelas instituições de controle estabelece um   MIC igual ou abaixo de 0,25µg/mL.  Nos Estados Unidos esse avanço tem sido particularmente notado no oeste do país e na população de homens que fazem sexo com homens (MSM). Mas a situação mais grave já foi descrita no leste asiático em 2003, Noruega e Reino Unido em 2010.  Alguns desses casos pontuais (ainda pontuais, felizmente) apresentavam  MICs de 2,0 a 4,0 µ/mL para a ceftriaxona. Felizmente nesses anos a vigilância epidemiológica, sobretudo no Japão, não detectou uma disseminação dessa cepa, o que, no entanto não garante que isso não vá acontecer ou esteja acontecendo num ritmo mais lento.
         Os mecanismos de resistência do gonococo estão relacionados com mutações gênicas  envolvendo especificamente os genes penA , penB  e mtrR, que, respectivamente estão envolvidos com a codificação da proteína 2 de ligação da penicilina (PBP2),  a entrada através dos canais de membrana (PorB1b) e o mtrR  que é um repressor da bomba codificada pelo MtrCDE.
         Não se sabe se doses maiores de cefalosporinas podem compensar a emergência de cepas resistentes.
         Atualmente  250 mg de ceftriaxone intramuscular, associado a 1 g de azitromicina por via oral constituem o tratamento standard, com cobertura de outros co-patógenos. Nesse panorama a doxiciclina parece ser menos atraente uma vez que gonococos resistentes às cefalosporinas de terceira geração, geralmente já exibem resistência às tetraciclinas. Pacientes alérgicos às cefalosporinas têm como única opção a administração de 2g de azitromicina oral, embora o próprio GISP tenha compilado 126 casos/amostras desde 2005 com MIC de azitromicina acima de 2 µ/mL, sendo que em 2010 foram 27 casos, incluindo um caso de total resistência no Hawaii em 2011 com MIC maior que 512µ/mL!
         Não há muito que fazer em termos de prescrever outra droga como primeira escolha.  As medidas preconizadas diante dessa situação com potencial de aumento dos casos, atingindo a prática clínica de cada um são as de controlar o resultado do tratamento, em torno de uma semana. Qualquer sinal ou sintoma de falha merece a indicação de cultura ou PCR para o gonococo, com teste de sensibilidade para orientar o novo tratamento.  Outras novidades que vem vindo por aí são testes de biologia molecular capazes de detectar antecipadamente quais  os gonococos com as alterações genéticas relacionadas com a resistência às cefalosporinas.

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Trombocitose paneoplásica no tumor de ovário.  Compreendendo o seu papel no crescimento do tumor e especulando novas abordagens terapêuticas.

Título original:  Paraneoplastic Thrombocytosis in Ovarian Cancer
Stone et. All .
N Engl J Med, 2012, 366;7:610-618.

Num artigo bastante original e elegante os autores, de mais de uma dezena de instituições americanas de saúde, observaram 619 pacientes com câncer de ovário associando as contagens plaquetárias e o desenlace da doença.
A trombocitose esteve significativamente associada com doença avançada e sobrevida curta.  Os níveis plasmáticos de trombopoietina e interleucina-6 estavam significativamente elevados nas pacientes com trombocitose comparativamente as que não a exibiam. No modelo animal o uso da interleucina-6 derivada do tumor aumentou a síntese da trombopoietina hepática.  A relação das duas substâncias também foi verificada nas pacientes. Tratamentos utilizando anticorpos anti-interleucina-6 conseguiu reduzir significativamente os níveis de plaquetas nas pacientes e também no modelo animal. Nesse último um efeito adicional da redução das plaquetas foi  uma melhora da eficácia do paclitaxel no câncer de ovário epitelial, reduzindo seu crescimento e angiogênese.
Concluem os autores que certamente, no câncer de ovário, existe um mecanismo parácrino  que induz a produção de citocinas trombopoiéticas no tumor e nos tecidos do hospedeiro que leva a trombocitose paraneoplásica que alimenta fortemente o crescimento tumoral. Identifica-se na contenção dessa trombocitose, com as citocinas como alvo direto ou indiretamente uma terapia potencial a mais no combate ao câncer de ovário.