Mostrando postagens com marcador Fitoterápicos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fitoterápicos. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 19 de setembro de 2017

MIOMA E FITOTERAPIA


Há tratamento fitoterápico para miomas uterinos?

Ceci Mendes Carvalho Lopes*
           
Um número muito grande de mulheres é de portadoras de miomas uterinos, algo como um quinto delas! Porém a maioria dos casos nem pede tratamento, pois são de pequena monta, não causam sintomas e, com alguma frequência, são descobertos por casualidade. No entanto, um certo contingente deles exige alguma intervenção. Às vezes, medicamentos dão conta, pois basta tratar os sintomas desagradáveis associados à presença desses tumores benignos. Por outro lado, outros exigem tratamento cirúrgico, que pode, inclusive, ser radical. Cada caso é diferente do outro.
Muitas vezes somos procurados por pacientes que já souberam da possibilidade de tratamento ‘natural’, por ouvir falar, ou porque viram na mídia. Faz-se mister ‘separar o joio do trigo’ e checar o que é fato e o que é mera crendice.
Tratando sintomas mais incômodos, geralmente, como já dissemos, não há necessidade de intervenções mais agressivas. Assim, solucionando a dor (é comum a associação com fortes cólicas menstruais), ou o sangramento excessivo (que pode comprometer seriamente a saúde), em muitos casos é o bastante, uma vez que o mioma é um tumor benigno, cuja expectativa é que permaneça benigno.
As principais preocupações são o sangramento, a anemia e, quando possível, a redução tumoral: tópicos a serem levados em conta.
            Como a cólica menstrual tem sido associada à liberação de prostaglandina e vasopressina, causando contratura miometrial, isquemia uterina, com conseqüente sensibilização das fibras sensitivas, é possível tratamento com analgésicos, ou, ainda melhor, com antiinflamatórios não-esteroidais e contraceptivos hormonais1. Resolve-se, assim, a dor e regulariza-se a perda sanguínea.
Mas há vários fitoterápicos úteis na sua terapêutica, com resultados variados.

1-Ácidos graxos essenciais
            Por atuar deflagrando a cascata das prostaglandinas, as gorduras Omega-6 podem desencadear a cólica. Considerando que a dieta pode ser rica em Omega-6,  recomenda-se aumento da ingestão de omega-3 (presentes em peixes e nozes), a fim de que a relação omega-3/omega-6 seja mais favorável. Além disso, a ingestão de vitamina B12 (7µg ao dia) potencializa o efeito dos omega-3. Essa medida pode favorecer a diminuição do uso de analgésicos e anti-inflamatórios3.     
Estudo realizado com 42 mulheres utilizando óleo de peixe mostrou-se efetivo na redução da dor menstrual. As autoras consideram que a dosagem usual de omega-3, de 3 a 4g por dia é bem tolerada e segura. Aconselham seu uso, embora reconheçam a necessidade de mais estudos4. O estudo foi feito com óleo de peixe, por ser rico em Omega-3, mas a ingestão de sementes oleaginosas é uma opção.

Revisão de vários estudos controlados por placebo atesta a eficácia dos omega-3 no tratamento da cólica menstrual, porque o ácido eicosapentanóico (EPA) e o docosaexanoico (DHA) competem com o ácido araquidônico, interferindo na cascata, o que vai resultar em menor produção de prostaglandinas e leucotrienos, resultando, em conseqüência, sintomas de menor intensidade. Dados epidemiológicos  demonstram que a baixa ingestão de alimentos ricos em omega-3 eleva a possibilidade de cólica menstrual.  Não mencionando fitoterápicos, os autores recomendam a ingestão de peixe, em vez de óleo de peixe, porque a estabilidade do óleo varia muito no correr dos dias5. No mercado existem cápsulas de óleo de peixe, que não são fitomedicamentos, por não terem origem vegetal. Não há produtos padronizados de origem vegetal, que sejam fonte de Omega-3, portanto recomenda-se a adequada providência alimentar, se o objetivo for tratar com produtos vegetais: linhaça, castanha do Pará, amêndoas, etc.

2- Rosa

Em vários países asiáticos é comum o uso do chá de rosa, feito com botões da flor, ou com folhas dela (Rosa gallica), como tratamento da cólica menstrual. Foi feita uma revisão bibliográfica, buscando informações sobre a rosa, e foi encontrado um único estudo controlado, realizado em Taiwan, com 130 pacientes adolescentes às quais foi administrado o chá (2 xícaras ao dia, por 12 dias), com eficácia5.

É importante ressaltar, portanto, a escassez de referências, além do que, habitualmente a flor, salvo as dos nossos jardins, costuma ser encontrada em floriculturas, e seu cultivo pode incluir aditivos agrícolas, desconhecidos do público comum, com possíveis efeitos sobre a saúde. E também faz-se mister cosiderar que há muitos tipos de rosa, além da estudada, e sempre existe a possibilidade de que atuem de forma muito diferente. Além disso, não há fitomedicamento disponível. 
           

3-Harpagophyton procumbens (garra do diabo)



Esta é uma das 12 plantas liberadas pelo Ministério da Saúde para uso no SUS. É um poderoso antiinflamatório, e atua de forma bem similar aos antiinflamatórios não-hormonais, reduzindo a inibição da síntese de leucotrienos e de tromboxano, dose-dependente, atribuindo-se essa ação ao harpagosíde6. Se estamos imaginando utilizá-lo no tratamento da cólica menstrual, parece paradoxal, pois  em monografia cita-se seu uso como ocitócico, sem, no entanto entrar em detalhes. Ressalta-se sua atividade anti-inflamatória e analgésica. O que se menciona é ação estimulante da musculatura miometrial, e se recomenda não utilizar durante a gestação. Confirma-se esse efeito, através de estudo, em ratas, em que se comprovou propriedade uterotônica, espasmogênica, justificando, assim, o uso folclórico no trabalho de parto e na retenção placentária8. Não encontramos estudos especificamente sobre a cólica menstrual. Parece fazer mais sentido, por ser ocitócico, seu uso no tratamento do sangramento profuso, em casos de miomas. Mas também não há referências, no caso.
            


4-Lotus-da-neve



           Tibetanos usam o lótus-da-neve (snow lotus), que, na realidade corresponde a qualquer uma de 3 plantas semelhantes (Saussurea involucrata, Saussurea laniceps, Saussurea medusa), para problemas reumáticos, gastrites e dismenorréia. Estudo em camundongos, demonstrando efetividade nas 3 plantas, porém nitidamente melhor com S. laniceps9. Na medida que seu uso é indicado para dismenorréia, talvez seja útil no controle doloroso menstrual em portadoras de miomas. Só que não é um produto usualmente disponível em nosso meio, embora possa ser encontrado pela internet (sem referências confiáveis).
 Entre os uigures, tibetanos, habitantes da cadeia do Himalaia, é difundido o uso do lótus-da-neve (snow lotus), que, na realidade corresponde a qualquer uma de 3 plantas semelhantes (Saussurea involucrata, Saussurea laniceps, Saussurea medusa). Seu uso é indicado para problemas reumáticos, gastrites e dismenorréia. Para avaliar seu efeito, foi realizado estudo em camundongos, demonstrando efetividade nas 3 plantas, porém nitidamente melhor com S. laniceps9. Na medida que seu uso é indicado para dismenorréia, talvez seja útil no controle doloroso menstrual em portadoras de miomas. De qualquer modo, não é um produto correntemente utilizado entre os ocidentais, e as referências são muito escassas.
Há produto comercial disponível em sites da internet, mas sem referência farmacológica.
5-Combinações herbáceas
            Medicações que incluem várias plantas são comuns em alguns países, especialmente os asiáticos.
Muito utilizado na Coreia e China, há uma formulação muito tradicional denominada Gyejibongneyong-hwan, ou Ghizhi Fulling formula, com cinco componentes, em proporções iguais (Cynnamomi ramulus, Poria, Moutan cortex, Persicae semen, Peoniae radix). Autores coreanos o estão estudando, mas ainda não dispomos dos resultados 10, 11 .
            No Japão, utiliza-se uma mistura herbácea denominada toki-sakuyaku-san, contendo 6 plantas (Angelica sinensis, raízes, Paeonia lactiflora, raízes, Lingusticum, rizoma, Atractiloides, rizoma, Alismatis, rizoma, Sclerotia poria), mas que podem ser utilizadas em proporções diferentes, e não há padronização. Pertence ao arsenal da Medicina Kampo (geralmente exercida por não-médicos), tradicional no Japão, e usada para tratamento de cólica menstrual e sintomas climatéricos, com boa efetividade. Há estudo que demonstra melhora de dismenorréia, hipermenorréia, tonturas, sensação de frio, cefaléia12. Portanto, talvez se aplique ao objetivo de tratamento que procuramos.

            Relata-se que curandeiros dominicanos recomendam preparado de beterraba (Beta vulgaris L, Chenopodiaceae) e melaço (produzido a partir de Saccarum officinarum, a cana de açúcar) como tratamento para os miomas, como também para endometriose, menorragia e calores da menopausa. A quantidade de fibras vegetais contidas na beterraba pode afetar, ao menos teoricamente, os níveis estrogênicos, pois altos níveis de fibras reduzem a recirculação enteroepática de estrogênios, aumentando a excreção urinária e fecal. Como os estrogênios influem sobre o crescimento dos miomas, a sua redução seria um fator inibidor. Além disso, as folhas de beterraba contêm fitoestrogênios que, durante a menacma, atuam como antiestrogênios, e já foi demonstrado que gado alimentado com essas folhas apresentou infertilidade (por ser antiestrogênica), mas também se demonstrou crescimento do volume uterino em camundongas (atuação estrogênica). A beterraba é rica em carotenóides, que também se sabe podem reduzir o crescimento de miomas, uma vez que se demonstrou em culturas de tecidos que as células do músculo liso contêm receptores do ácido retinóico, e que há redução dose-dependente de seu crescimento com ácido trans-retinóico. Relata-se ainda que a coloração da urina após ingestão dessa raiz é mais comum em pacientes anêmicos, e que a coloração diminui com a suplementação de ferro, sugerindo que possa ser usado esse dado, inclusive, como indicador da redução da deficiência em ferro de pacientes tratados. Como os miomas podem causar anemia ferropriva, em função do sangramento genital, essa seria mais uma aplicação do tubérculo, especialmente se associada ao melaço, rico em ferro. Apesar de inexistirem estudos clínicos que confirmem o benefício desse tratamento popular, ele merece ser considerado e, como tal, estudado13. Em nosso meio, também não é incomum encontrarmos referências populares quanto a esse uso da beterraba.


C- Plantas citadas especificamente para tratamento dos miomas

1- Unha de gato (Uncaria tomentosa)



   Essa planta tem uso popular no tratamento de miomas na região amazônica. Não há referências científicas a respeito. Muitas são as menções a ela na mídia eletrônica14. Por outro lado, seu efeito antiinflamatório é conhecido e reportado, e se trata de uma das doze espécies liberadas para uso no SUS; além disso, existem fitomedicamentos que a contêm. Assim, eventualmente a sua fama como útil no tratamento de miomas poderia ser focada nesse aspecto, apenas minorando o quadro doloroso, e talvez valesse a pena utilizá-la como recurso terapêutico, pela sua disponibilidade. Pela sua atividade antiinflamatória, talvez tenha boa aplicação para diminuir a cólica menstrual, mas também não há menção em literatura.
Autores da UNIFESP estudaram, em ratos, sua ação, visando a endometriose. Essa doença tem em comum com os miomas o fato de se desenvolver na dependência da atividade hormonal. Administraram extrato da planta, ou acetato de leuprolide (antagonista do GnRH), ou placebo, a ratas. Observaram que o extrato levou a anovulação equivalente (quiçá superior) ao leuprolide, demonstrando a supressão da atividade ovariana15.  Esse estudo nos aguça a curiosidade sobre a possível eficácia na redução volumétrica dos miomas, que também se obtém com antagonistas do GnRH, que é um tratamento que, se não faz os tumores desaparecerem, ao menos propicia, por causarem sua diminuição, maior facilidade num posterior tratamento cirúrgico.


2-uxi amarelo (Endopleura uchi Cuatrec)
            

A referência ao uso dessa planta amazônica é basicamente popular, e existem chás disponíveis à venda. É uma planta característica da Amazônia brasileira, e é conhecida por vários nomes, como uxi, uxi amarelo, cumatê, axuá, pururu, uxi-ordinário ou uxi-pucu. É disseminado seu uso folclórico para tratar artrite, colesterol, diabete, diarreia, e como antiinflamatório e inclusive como anticancerígeno16.
Quanto aos miomas, o tratamento é de utilizar o chá, diariamente, geralmente no período da manhã, alternando com chá de unha de gato à tarde, ou vice-versa.
 A literatura é escassa. Os constituintes de sua casca, potencialmente terapêuticos, são predominantemente taninos, cumarínicos e saponinas. Foram analisados os efeitos dos taninos: atividade antioxidante, ausência de citotoxicicidade, baixo efeito antimicrobiano. Seu uso é bastante seguro. Há boa perspectiva, em se fazendo novos estudos, como possível antineoplasico 16.
O arabinogalactano encontrado no seu chá, na concentração de 25 a 500mg/ml, inibiu aproximadamente 20% das células HeLa, em 48 a 72 horas, porém sem efeito dose-dependente. E também, na dose de 100mg/ml reduziu em 25% a proliferação celular. Não parece haver influência do arabinogalactano, devendo estar envolvidos outros mecanismos, na inibição celular17.
Os estudos demonstram a boa potencialidade medicamentosa do uxi, mas em nenhum deles há menção à possível atuação sobre os miomas, embora todos mencionem esse uso de cunho tradicional.
Miscelânea
Reunimos neste tópico informações não tão precisas, ou seja, que demandam mais estudos, porém que indicam possibilidades na terapêutica.
1-    Medicina chinesa
Foi realizada revisão de múltiplos estudos duplo-cegos, abrangendo um total de 3475 mulheres. Os autores avaliaram em especial o controle da dismenorréia, comparando com os tratamentos convencionais, como antiinflamatórios não-hormonais, ou contraceptivos, e concluíram que os diferentes produtos herbáceos abrangidos na medicina chinesa são efetivos, inclusive às vezes melhores até que a acupuntura, porém a qualidade da maioria dos estudos deixa a desejar. Não foram mencionados efeitos adversos significativos1.
Grupo de pesquisadores chineses pesquisou, em ratos, o efeito de fórmula tradicionalmente utilizada em medicina chinesa (já a mencionamos como tratamento de dismenorréia), a Guizhi Fuling, demonstrando redução acentuada do útero, diminuição da proliferação celular miometral, decréscimo de estradiol e de progesterona séricos. O efeito foi dose-dependente18.
Autores de Taiwan pesquisaram em um milhão de prontuários aqueles que se referiam a mulheres portadoras de mioma, chegando a cerca de 46mil casos, dos quais selecionaram aqueles atendidos entre 2002 e 2010 (37.786 casos). Entre esses, 31.161 mulheres utilizavam a medicina chinesa tradicional, e as demais eram tratadas pela medicina ocidental. As técnicas chinesas abrangiam acupuntura, moxabustão e outras. Cerca de dois quintos delas foram tratadas com medicamentos herbáceos. Foram identificadas 5 fórmulas que tinham várias ervas, e 5 ervas utilizadas exclusivamente. As fórmulas foram Ghi-zhi-fu-ling-wan, a Guizi fulling, (Cinnamomi ramulus, Poria, Peoniae radix, Moutan cortex, Persicae semen), Jia-wei-xiao-yao-san (Angelicae sinensis radix, Peoniae radix, Atractylodis macrocephalae rhizoma, Bupleuri radix, Moutan córtex, Gardeniae fructus, Glycirrhizae radix preparata, Menthae haplocalycis herba, Zingiberis rhizoma), Dang-gui-shao-yao-san (Angelicae sinensis rdix, Peoniae radix, Poria, Atractylodis macrocephalae rhizoma, Alismatis rhizoma, Chuanxiong rhizoma), San-zhong-kui-jian-tang (Eckloniae thalus, Phellodendri cortex, Anemarrhenae rhizoma, Trichosanthis radix, Platycodiradix, Sparganii rhizoma, Curcumae rhizoma, Gentianae radix, Coptidis rhizoma, Scutellariae radix, Puerariae radixPeoniae radix Alba). Os autores atribuem ação metabólica redutora de estrogênio, ou inibidora de prostaglandinas, antiproliferativa, e outras, que explicariam a redução dos miomas, e também a ação que muitas dessas fórmulas têm sobre a endometriose19. No entanto, como se associam muitas plantas, é muito difícil definir qual delas produz o efeito, nem qual das associações delas, nem se alguma delas tem até efeito antagônico. No mesmo estudo, foram identificadas 5 plantas utilizadas isoladamente: San-leng (rhizoma Sparganii), com a qual se descreveu supressão da proliferação celular e aumento da apoptose, E-zhu (rhizoma Curcumae), inibindo a proliferação celular, Xiang-fu (rhizoma Cyperi), com atividade antioxidante e inibição de radicais livres, Yi-mu-cao (herba Leonuri), da qual se descreve atividade antioxidante, analgésica, vasodilatadora e sedativa, Yan-hu-suo (rhizoma Corydalis), analgésica. Com todos esses produtos, ervas únicas ou combinadas, descreveu-se algum efeito, sendo a mais utilizada a fórmula citada acima em primeiro lugar, a Ghizi fulling19.
      O uso dos medicamentos da medicina tradicional chinesa, de forma indireta, demonstram sua eficácia, pois as pacientes  que os utilizam precisam de muito menos apoio de agentes terapêuticos utilizados na medicina ocidental, conforme estudo realizado em Taiwan. Isso inclui antianêmicos, hemostáticos e drogas de influência sobre os hormônios. Os autores do estudo concluem pelo benefício, abrangendo, como vantagem, mais baixo custo20.
2-    Plantas utilizadas por imigrantes dominicanos nos Estados Unidos
Foi feito um levantamento procurando verificar sobre que plantas havia estudos e quais eram mencionadas entre curandeiros usualmente consultados por imigrantes dominicanas radicadas em New York, Estados Unidos, para alívio de várias condições relacionadas, tais como miomas, menorragia, endometriose e calores da menopausa. Foram anotadas ainda outras aplicações, descritas nos estudos, como emenagogos (reguladores menstruais) e abortifacientes (e, muitas vezes, estas duas aplicações significavam o mesmo). Como muitas plantas não são fáceis de obter nos centros urbanos, e mesmo em alguns lugares na própria República Dominicana, esses curandeiros muitas vezes acabam adaptando suas prescrições às disponibilidades, incluindo, até, em algumas circunstâncias, plantas não-nativas da região caribenha, européias e africanas. Foram relacionadas 87 plantas, dentre as quais algumas se destacaram. Espécies de Agave foram mencionadas no tratamento de miomas uterinos, cólica menstrual e regulação menstrual. Aloe vera também foi referida como adequada para remover miomas e ‘limpar o corpo’, com sugestão de que regule a quantidade menstrual, e também como abortivo. Já mencionamos acima a beterraba. Dezenove plantas eram de uso corrente em New York, e foram citadas especificamente no tratamento de miomas, 6 delas sendo consideradas adequadas para tratar menorragia também. Os autores consideram que, embora todas tenham algum tipo de estudo, ao menos na literatura local, há necessidade de mais investigação21.

Considerações finais
            A fitoterapia é um campo em que a necessidade de mais investigação é enorme. Como pudemos ver, há muitos recursos com possíveis aplicações no tratamento de miomas. Não esgotamos o tema, pois há muitas menções, às vezes, até, ‘escondidas’ em textos que se referem a outro assunto. No entanto, mesmo os que parecem mais eficazes carecem de embasamento. Assim, parece ser um campo muito promissor, porque inclusive pode permitir, em alguns casos, até mesmo economia, pois muitas das opções são acessíveis facilmente. Só depende do empenho em investir na pesquisa.

Referências bibliográficas
1-- Zhu X, Proctor M, Bensoussan A, Wu E, Smith CA- Chinese herbal medicine for primary dysmenorrhoea. Cochrane Database of Systematic Reviews 2008 Issue 2. Art No.: CD005288 DOI: 10.1002/14651858.pub3
2- Proctor M, Farquar C- Dysmenorrhoea. Clin Evid  2002; 7: 1639-53
3- Saldeen P, Saldeen T- Women and omega-3 fatty acids. Obstetrical and Gynecological Survey 2004; 59(10): 722-30
4- Lloid KB, Hornsby LB- Complementary and alternative medications for women’s health issues. Nutr Clin Pract 2009; 24: 589-608
5- Zoorob RJ, Sidani M, Williams J, Grief SN- Women’s health: selected topic. Prim Care Clin Office Pract 2010; 37: 367-87
6- Loew D, Möllerfeld J, Schrödter A, Puttkammer S, Kaszkin M. -Investigations on the pharmacokinetic properties of Harpagophytum extracts and their effects on eicosanoid biosynthesis in vitro and ex vivo. Clin Pharmacol Ther. 2001 May;69(5):356-64.
7- Sem autor mencionado. Harpagophyton procumbens (Devil’s claw). Monograph.  Alt Med Rev 2008; 13(3): 248-52
8- Mahomed IM, Ojewole JAO- Uterotonic effect of Harpagophyton procumbens DC (Pedaliaceae) secondary root aqueous extract on rat isolated uterine horns. J Smooth Muscle Res 2009; 45(5): 231-9
9- Yi T, Zhao ZZ, Yu ZL, Chen HB- Comparison of the anti-inflamatory and anti-nociceptive effects of three medicinal plants known as “Snow lotus” tradicional Uigur and Tibetan medicines. 2010; 128(2): 405-11
10- Jung J, Lee JA, Ko MM, You S, Lee E, Choi J, Kang BK, Lee MS- Gyejibongneyoung-hwan, a herbal medicine for the teratment of dysmenorrhoea with uterine fibroids: a protocol for a randomised controlled Trial. BMJ Open. 2016; 6(11): e013440.
11- Jung J, Lee JA, Ko MM, You S, Lee E, Choi J, Kang BK, Lee MS- Gyejibongneyoung-hwan, a herbal medicine for the teratment of dysmenorrhoea with uterine fibroids: a protocol for a randomised controlled Trial. BMJ Open. 2016; 6(11): e013440.
12- Akase T, Akase T, Onodera S, Jobo T, Matsushita R, Kaneko M, Tashiro S- A comparative study of the usefulness of Toki-shakuyaku-san and an oral iron preparation in the treatment of hypochromic anemia in cases of uterine myoma. Yakugaku Zasshi 2003; 123(9): 817-24
13- Fugh-Berman A, Balick MJ, Kronenberg F, Osoki AL, O´Connor B, Reiff M, Roble M, Lohr P, Brosi BJ, Lee R- Letter to the editor. J Ethnopharmacol 2004; 92: 337-9
14-www.beneficiosnaturais.com.br  Chás para tratar miomas.
15- Nogueira Neto J, Cavalcante FLLP, Carvalho RAF, Rodrigues TGPM, Xavier MS, Furtado PGR, Schor E- Contraceptive effect of Uncaria tomentosa (cat’s claw) in rats with experimental endometriosis. Acta Cir Bras 2011; 26(suppl 2): 15-9
16- Politi FAZ, Melo JCP, Migliato KF, Nepomuceno ALA, Moreira RRD, Pietro RCLR. Antimicrobial, cytotoxic and antioxidant activitoes and determination of the total tannin contento f bark extracts Endopleura uchi. Int J Mol Sci 2011; 12(4): 2757-68
17-Bento JF, Noleto GR, Petkowicz CLO- Isolation of na arabinogalactan from Endopleura uchi bark decoction and its effect on HeLa cell.Carbohydrate Polymers 2014;101:871-7
18-Heng QQ, Cao L, Ding G, Wang ZZ, Xiao W- Effect of Guizhi Fuling capsule and combination of active ingredients with uterine myoma. Zhongguo Zhong Yao Za Zhi 2015; 40(11): 220609
19-Yen HR, Chen YY, Huang TP, Chang TT, Tsao JY, Chen BC, Sun MF- Prescription patterns of Chinese herbal products for patients with uterine fibroid im Taiwan: a Nationwide population-based study. J Ethnopharmacol 2015; 171: 223-30
20- Su SY, Muo CH, Morisky DE- Use of Chinese medicine correlates negatively with the consumption of conventional medicine and medical cost in patients with uterine fibroids: a population-based retrospective cohort study in Taiwan. BMC Complement Altern Med 2015; 15:129
21-Ososki A, Lohr P, Reiff M, Balick M, Kronenberg F, Fugh-Berman A, O’Connor B- Ethnobotanical literature survey of medicinal plants in the Dominican Republic used for women’s health conditions. 2002; 79: 285-98




* Ceci Mendes Carvalho Lopes é Assistente Doutora, Especialista em Fito-Ginecologia, da Clínica Ginecológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. 

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Curso Continuado de Fitoginecologia & Fitoterapia

COMBATE NATURAL AOS MOSQUITOS EM TEMPOS DE ZIKA, DENGUE, CHIKUNGUNYA & ALL

Neem (ou Nim), árvore-maravilha

Profa. Ceci Mendes Carvalho*



            A Azadirachta indica, o Nim (muitas vezes citado, entre nós, sob a forma em inglês, Neem), é uma planta que tem apresentado tantas qualidades, em termos medicinais, como também econômicos, tem sido designada como árvore-maravilha (wonder tree), ou farmácia da natureza (nature’s drugstore)1.
            São citados cerca de cem nomes para essa planta, em revisão feita por autor com atuação no Egito e na Malasia2.
            O Nim é uma árvore perene, original do subcontinente indiano, e reverenciada há milhares de anos. É conhecida desde a pré-história. Seu nome em persa pode ser traduzido como “a árvore livre da Índia”. Conhecem-se citações sobre ele desde mais de 4000 anos atrás. Foi utilizado numa das formas mais antigas de medicina, a medicina Siddha (empregada desde cerca de 10mil anos antes de Cristo, até cerca de 4000 anos AC), entre o povo Tamil, sendo a primeira planta citada por eles, como neem ou margosa. Textos da literatura tâmil, em folhas de palmeira, têm sido bem conservados, existem hoje em bibliotecas em vários pontos do mundo (especialmente na India, Alemanha, Grã-bretanha e Estados Unidos) e, hoje em dia, com os recursos tecnológicos de fotografia e digitalização, tornaram-se acessíveis amplamente, até mesmo pela internet. Nesses textos com freqüência se descrevem plantas medicinais, incluindo não só sua descrição, como incluindo o modo de uso, proporções, partes da planta, etc.3. Em escritos sânscritos antigos é denominado por arishtha, que significa “que cura doenças”. Tem sido utilizado amplamente pelos terapeutas das medicinas ayurvédica e unani, pois, dependendo da parte utilizada da planta, tem capacidade de combater a febre, a dor, e tem várias outras atividades terapêuticas, inclusive como antimalárico e contra a lepra. È também muito eficaz como repelente de vários tipos de insetos. Estudos do formato que se faz no ocidente só se iniciaram após os anos 50, século XX4.
            O nim é uma árvore da mesma família do mogno (Meliaceae), tem crescimento rápido, e se adapta a diferentes climas, mesmo à seca (embora seja de clima tropical), tem copa densa e pode alcançar 20m de altura. Tem sido cultivada em várias partes do mundo, nas Américas, na Alemanha, e, no Brasil, foi introduzida por Belmiro Pereira das Neves, em 1993, como capaz de evitar o uso de agrotóxicos. Ele argumenta que a árvore não só pode ser utilizada na produção de pesticidas, mas também na agricultura familiar, porque oferece sombra e frutos. Tem sido utilizada em projetos de reflorestamento, em substituição aos pinheiros e eucaliptos, porque seus frutos atraem animais e sua cultura é considerada de baixo custo. Comercialmente pode ser aproveitada de vários modos, desde sua madeira, resistente e bonita, como na produção de repelentes, pesticidas e vários tipos de fármacos e cosméticos5.


Uso medicinal do nim


Leia na íntegra clicando abaixo.

sábado, 8 de novembro de 2014

Fitoterapia

Hipérico como tratamento no climatério?

Dra. Ceci Mendes Carvalho Lopes*


          O hipérico, ou hipericão, (Hypericum perforatum), também denominado Erva de São João, é conhecido há cerca de 2000 anos e utilizado para distúrbios emocionais, desde então.  Hoje em dia, é reconhecida sua ação antidepressiva, e, como tal, empregado como tratamento para estados depressivo leves e moderados.
           O nome ‘perforatum’ decorre do aspecto das folhas, que, olhadas contra a luz, parecem apresentar vários pequenos orifícios.
       Embora anteriormente fossem utilizadas plantas selvagens, hoje utilizam-se plantas cultivadas. A parte utilizada são as folhas, flores e botões terminais.  Seus principais componentes são as hipericinas (substâncias do grupo das  naftodiantonas), e as hiperforinas, compostos instáveis, sujeitos a oxidação, aparentemente protegidas disso, na planta, pela presença de flavonóides, e, nos produtos farmacêuticos, pela adição de antioxidantes como o ácido ascórbico. As hipericinas têm atuação antidepressiva, porém podem, na dependência da sensibilidade pessoal, e da quantidade, causar fotossensibilização no usuário. As hiperforinas têm ação antidepressiva mais marcante do que a das hipericinas.
            Os produtos comercias usualmente são apresentados em comprimidos com 300 mg de extrato, padronizado por  90 mg de hiperforina, como ingrediente ativo1.

Saiba mais

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

CURSO DE FITOTERAPIA PARA GINECOLOGISTAS


A Dra. Ceci Mendes Carvalho Lopes, Doutora em Ginecologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, preparou um curso de Fitoginecologia para Médicos Ginecologistas. A razão, além do conhecimento científico robusto no assunto, é a inclusão  de vários fitoterápicos no Sistema Único de Saúde, como medicamentos complementares  ao arsenal tradicional já em uso.

ADVERTÊNCIA:
EVITE A AUTOMEDICAÇÃO .  CONSULTE SEU MÉDICO.  FITOTERÁPICOS, APESAR DE ORIUNDOS DE PLANTAS NATURAIS, NÃO SÃO ISENTOS DE EFEITOS COLATERAIS, CONTRAINDICAÇÕES E POTENCIAIS DANOS A SUA SAÚDE.
                                              -o-o-o-

Politica Nacional de Práticas Integrativas e Complementares

Ceci Mendes Carvalho Lopes

            Muito se tem discutido sobre a utilização de métodos tradicionais de tratamento em diversos problemas de saúde. Há práticas consagradas pelo uso popular, pela tradição, pela observação diária, embora nem sempre apoiada em apreciação com fundamento científico. A opinião da classe médica é de que devem ser avaliadas cuidadosamente, pois, não havendo uma avaliação científica, a confiabilidade é posta em questão.
            A Organização Mundial da Saúde pôs o tema em discussão há bom tempo,  e também o nosso Ministério da Saúde não ficou alheio a essas práticas, colocando em discussão o seu uso. Foram feitas propostas e o assunto foi abordado, inclusive em pesquisa pública.

CLICK ABAIXO  NO  "mais informações" E LEIA O TEXTO COMPLETO

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Entrevista com a Dra. Ceci Lopes

Dra. Ceci Lopes é a presidente da SOBRAFITO - Sociedade Brasileira de Fitoterapia. Ginecologista da Clínica Ginecológica do HCFMUSP, responsável pelo curso de Fitoginecologia que vai ser realizado em novembro de 2010, em São Paulo no Centro de Convenções Rebouças entre os dias 9e 11 daquele mês.

1)Quais são as grandes diferenças entre os medicamentos fitoterápicos e convencionais, além da sua origem vegetal?

Medicamentos fitoterápicos são produzidos a partir de plantas, ou partes de plantas, geralmente produzindo-se extratos com padronização, ou seja, é necessário que haja quantidade equivalente dos produtos ativos sempre que esses medicamentos sejam utilizados. É identificado o princípio ativo, a sua ação, eventuais efeitos adversos, toxicidade, tudo exatamente como se faz com qualquer outro medicamento convencional, os chamados "medicamentos sintéticos". É necessário que seja comprovada sua atuação terapêutica por estudos científicos com o melhor embasamento possível. E que obedeçam a regulamentação, da mesma forma que os medicamentos convencionais.

2) Durante muito tempo a fitoterapia não recebeu muito crédito da própria classe médica. O que mudou esse modo de pensar?

Os fitoterápicos foram a primeira forma de remédios utilizados pela humanidade, há milhares de anos. Porém, sempre foram utilizados com base apenas na observação e experiência do profissional de saúde. Com o advento da indústria química, começaram a ser produzidos agentes terapêuticos com características precisas, e os fitoterápicos foram sendo abandonados, como "coisa de antigamente", sem credibilidade. Apesar disso, inúmeros medicamentos comuns são originários de fitoterápicos, ou por purificação, ou por modificação química. No entanto, à medida que se foram fazendo estudos científicos com eles, e estudando-os nos mesmos moldes que se faria com qualquer outro medicamento, foi sendo estabelecido um novo panorama, confirmando, ou descartando a real eficácia dos produtos originados de fontes vegetais.


3) Qual o papel da fitoterapia na vulvovaginite? Quais são suas vantagens sob os agentes já utilizados tradicionalmente?

Entre os produtos de origem botânica, muitos possuem efeitos antissépticos, anti-inflamatórios e mesmo semelhantes aos efeitos dos antibióticos. Assim, as pessoas os utilizavam, de vários modos, como, por exemplo, para banhos. Após observação criteriosa, pelos métodos baseados em evidências, foram sendo desenvolvidos medicamentos utilizando essa matéria prima, que estão disponíveis no arsenal farmacêutico. Por exemplo, há produtos comerciais com base no trigo, na camomila, na aroeira, e outros. São eficazes e nem sempre apresentam tantos efeitos adversos como outros produtos sintéticos.


4) Quais são as outras principais aplicações da fitoterapia em Ginecologia?

Quase se pode dizer que fitoterápicos são aplicáveis em qualquer campo da Medicina, assim como na Ginecologia. Vários medicamentos quimioterápicos, utilizados para o tratamento do câncer, são de origem vegetal. Utilizam-se outros para atividades realcionadas ao sistema nervoso, como tranquilizantes, antidepressivos, indutores do sono. E geralmente com muito poucos efeitos indesejáveis, e sem indução a hábito ou dependência. Nos sintomas da menopausa, também há grande aplicabilidade, especialmente para mulheres que não desejam, ou não possam, utilizar hormônios.